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27.9.12

Dicionários equivocados

Aquela sensação inexplicável que passa pela espinha, fazendo os pelos ficarem em pé e uma gentil camada de ar se envolver na pele, isolando e protegendo do frio. Seria mesmo de uma camada de ar que eu falo? Estremecimento que resulta de um medo, diz o dicionário. Não... medo não. Pobre dicionário. Não sabe o que é vida. Dessa vez eu vivo, intensamente, cada detalhe, cada palavra dita. O gesto se junta com a palavra, que se junta com o olhar, que se junta com o toque e por fim se unem na forma mais simples. Um sorriso não pode ser complexo. Dá pra entender facilmente o que não pode ser dito. E lá vem àquela sensação novamente. Não é medo, não é frio. O que é um arrepio? Eu diria Fascinação. Vai lá ao dicionário e procura por tal palavra. Dessa vez ele acertou.


1.8.12

Fico eu

Enquanto teus corpos se entrelaçam, Enquanto sentem um o calor do outro, Enquanto dançam teus doces lábios… Fico eu a te imaginar. Enquanto tuas vidas prosseguem, Enquanto os vinhos lhes embebedam, Enquanto os banquetes lhes saciam… Fico eu a te desejar. Enquanto os buquês de felicidade chegam, Enquanto os bombons de amor são comidos, E o tempo quase cessa pra vocês… Fico eu a lhes invejar. Enquanto minha vida gira em sentido contrário, Enquanto não nos tropeçamos nas sarjetas, Enquanto não brindamos chá… Fico eu a te amar. Fico eu a te imaginar, desejar, invejar e amar. Fico eu, fica tu, ficamos nós…separados, Enquanto a vida vai passando no nosso meio, E como um rio ela corre muito rápida! Fico eu sem nadar, esperando por ti nas margens dela. Seria eu feliz sem tê-la dentro de mim? O amor nos confunde mais que teorias físicas. Meu corpo já não aguenta a pressão sobre os ombros, Enquanto tu é feliz,fico eu a te carregar. Enquanto sacia tua fome e os desejos de tua carne, Perco as horas sem ouvir um alarme, Não há sequer um alarde quando há felicidade Enquanto tu vive como gente,fico eu a vegetar amor. Se há paz em ti, ela é minha, devolva-me. Foi tão sem educação que entrou sem pedir, E não sairá se eu não permitir. Minha paz não será moeda de troca, Enquanto tu me rouba, fico eu a te prender. Enquanto penso eu que estás na solidão, Tu amas qualquer bonachão… Ele te faz feliz,como pensas que sempre quis, Mas posso mais, posso além…mas tu me detém. Enquanto se engana,fico eu a me decepcionar. És a vilã do meu conto, Em tuas frases nunca há ponto, só mistério. Não guilhotino esse amor, seria suicídio. Te prendo dentro de mim e sou prisioneiro de ti. Enquanto teus olhos atam-me pouco a pouco. Fico eu como um alucinado, de longe, a te amar.


11.4.12

Somos aquilo que escrevemos!


Somos aquilo que ouvimos, aquilo escrevemos e aquilo que agimos. Todas as 
nossas ações são reflexos de nossa personalidade. Há algum tempo descobri 
que além da música e traços mal feitos a melhor forma de expressão que eu 
podia ter era a escrita. Escrever era bem mais que um português correto ou a 
futura profissão, escrever representava aquilo que só palavras podiam entender 
e se eu fosse explicá-las, não haveria nexo. Fui capaz de incentivar pessoas 
especiais a me entenderam influenciando a escreverem. Hoje, com todas as 
letras digo que sou aquilo que escrevo. Lembra quando você era pequeno e 
escrevia alguns versos bobos? Aquilo era o reflexo da sua inexperiência. Ou 
quando a professora lhe elogiou pela sua redação? Não passava de reflexos 
de sua capacidade. Aqueles textos e contos inspirados? Foram conseqüências 
de dores. Pense em Machado de Assis ou em Shakespeare. Ambos escreveram 
clássicos da literatura nacional e internacional. Shakespeare foi um poeta romântico 
e escreveu as mais belas histórias de amor. Será mesmo que só imaginando todo 
aquele amor ele foi capaz de obter inspiração para escrever Romeu e Julieta? Ele 
amou. E Machado de Assis? Todo o seu realismo e o fato de sempre mencionar 
adultérios e o sistema capitalista que vivemos, provavelmente refleti em experiência 
própria. E eu? Como meio que uso para divulgar pensamentos e sentimentos, tanto 
textos como contos são mutáveis, exatamente como estou me sentindo ou 
pensando. Como o filósofo Renée Descartes havia dito, por meio da experiência 
adquirimos o conhecimento. Por fim, concluo que somos aquilo que escrevemos!

9.2.12

Era uma vez...


...um velho homem que vendia balões numa quermesse.
Evidentemente, o homem era um bom vendedor, pois deixou um balão 
vermelho soltar-se e elevar-se nos ares, atraindo, desse modo, uma multidão de 
jovens compradores de balões. Havia ali perto um menino negro.
Estava observando o vendedor e, é claro apreciando os balões.
Depois de ter soltado o balão vermelho, o homem soltou um azul, depois 
um amarelo e finalmente um branco. Todos foram subindo até sumirem de vista.
O menino, de olhar atento, seguia a cada um.
Ficava imaginando mil coisas…
Uma coisa o aborrecia, o homem não soltava o balão preto.
Então aproximou-se do vendedor e lhe perguntou:
- Moço, se o senhor soltasse o balão preto, ele subiria tanto quanto os outros?
O vendedor de balões sorriu compreensivamente para o menino, arrebentou a linha 
que prendia o balão preto e enquanto ele se elevava nos ares disse:
- Não é a cor, filho, é o que está dentro dele que o faz subir.

30.11.11

.



Avistou a estrada ao longe. A trilha repleta de flores, árvores e metáforas facilmente 
a seduziu.
- Quanto verde! Quanta beleza! Quanta poesia!
Abandonou o mundo cinza-concreto e habilmente trocou seu espírito outrora angustiado por uma alma leve e feliz.
Decidiu-se por aquela estrada, ou teria sido a estrada a decidir-se por ela?
Nunca soube de fato. Dela, só se sabe que seguiu. Seguiu assim, sem mais certezas, possuidora apenas de si mesma, e de sua própria vontade. Mas isso não é tudo o que realmente importa?
Nunca se preocupou em descobrir. Nunca se preocupou em entender.
Ela era toda pés, e tudo o que fazia era caminhar. Os pés mostrariam o caminho.
Seguiu assim, nas suas andanças, sem medo de se perder, de esquecer o caminho de volta.
Não sabia até que ponto queria voltar. Não sabia até onde deveria ir.
Mas é sabido que foi; foi assim, fiel à muita pouca coisa. Fiel de verdade, apenas à si mesma e à sua própria autonomia.
Pelo sim, pelo não, garantias apenas ao seu próprio ser.
Se voltou? Se gostou? Se sorriu? Se chorou?
Ela se limita a dizer que viveu.
E completa, perdida em pensamentos:
- Isso é tudo o que de fato interessa.

20.7.11

A menina - poesia.




Dizem que surgiu do nada, igualzinho a chuva de verão. Quem é que ia prever uma coisa dessas? Dizem que apareceu ainda criança de colo, no meio do dia. Pisca um olho, a praia deserta. Pisca o outro, um bebê rastejando na areia, brincando com conchinhas. Dizem que foi criada por uma velhinha de cabelos grisalhos e longos. Dizem também que foi adotada por um casal que tinha doze filhos. Outros falam ainda que cresceu sozinha, na praia. Eu não sei. Mas o que importa é que a menina cresceu... Dizem que não saía do mar. Nadava de fazer inveja ao peixe mais nadador. Mergulhava tão fundo sem prender a respiração. Disseram logo que era filha do mar. Dizem que também corria depressa. Ninguém pegava a menina na carreira. Os cabelos loirinhos esfarelando-se no ar, apenas um vultinho corredor lá longe. Disseram então que era filha do vento. Dizem que era capaz de transformar até o coração mais duro numa maria-mole. Dizem que encantava a toda gente. A menina era mais doce do que sorvete. Dizem que tinha os olhos azuis que nem céu de janeiro. E a pele assim bronzeada, de tanto tomar sol. Juntava isso às faces rosadinhas e dá-lhe beleza de fazer inveja às meninas bonitas da capital. Dizem também que olho azul não tinha, não. Muito menos cabelo loiro, veja só! Muitos acham que a menina era mesmo bem morena; ou talvez ruiva, me fugiu à memória. Dizem que quase não falava. Vivia num significativo silêncio, tímida, delicada. Dizem outras línguas que a menina era muito tagarela, não parava de falar. Eu não sei. O certo é que não tinham certeza mesmo de quase nada; muito pouco de fato se sabia sobre aquela menina. Mas em uma coisa todo mundo concordava: a menina era a própria poesia.

26.2.11

Desatino coerente



Num desatino coerente, desisti de tentar corresponder a todas as expectativas. Abri a gaveta e num ímpeto joguei fora os velhos papéis. Anotações, lembretes, sonhos e desejos de uma vida que há muito não era mais a minha. A caderneta de telefones. Maioria números discados por obrigação. A elegante obrigação social de dizer olá, tudo bem, como vão as crianças, e etc e tal quando no fundo a única coisa que se quer é ficar em casa olhando o céu através da janela. Joguei-a fora também. Despi-me das fantasias inúteis e dos desejos ingênuos de quem vive para agradar alguém. Resolvi admitir-me como sou; eu por completo, minhas certezas e minhas dúvidas também. O que sou e o que não sou. Por enquanto. Lavei a cara e a alma de toda a maquiagem. Sem mais desculpas, sem mais angústias, sem mais disfarces. Saí fora de tudo aquilo que há muito não me agradava. E consegui pensar claramente em minha vida e em minha única obrigação, a qual chamamos ser feliz. E não importa quanto tempo leve, o quanto as pessoas falem, não importa mais nada além da felicidade que estou pronta para buscar. Finalmente a gaveta está limpa. Minha alma também.
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